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Saúde

Caminhar e exercitar a panturrilha ajudam a prevenir trombose

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Médico explica e avalia estudos que mostram que risco de sofrer com a obstrução de veias por trombos é muito maior em quem é infectado com Covid-19 do que em quem toma a vacina

O exercício físico e a simples prática de caminhadas incrementam a circulação e são importantes para prevenir a trombose venosa profunda, que ocorre quando há a formação de um coágulo sanguíneo em uma ou mais veias, obstruindo a passagem de sangue. Isso acontece porque a atividade física que exercita os membros inferiores facilita a ação da esponja plantar e dos músculos da panturrilha, conhecidos como segundo coração, impulsionando o sangue das veias contra a gravidade e, assim, melhorando o retorno venoso. Por isso, o médico angiologista João Sahagoff, presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular do Rio, recomenda uma vida ativa e exercícios regulares como uma das formas de prevenção contra a doença, que se origina geralmente nas pernas. O cuidado é importante especialmente em tempos de pandemia de Covid-19, já a trombose pode ser uma das consequências da infecção pelo vírus.

Exercícios de subir e descer na ponta dos pés trabalham a panturrilha — Foto: Getty Images
Exercícios de subir e descer na ponta dos pés trabalham a panturrilha — Foto: Getty Images

Recomendo uma caminhada dentro de casa, movimentação ativa e passiva das pernas e acompanhamento clínico amiúde da Covid-19 como prevenção da trombose venosa profunda. O exercício físico pode ajudar na prevenção da trombose em quem teve Covid pelo mesmo motivo que ajuda a prevenir a trombose em qualquer indivíduo – ensina Sahagoff.

A fisioterapeuta Isadora Guasti explica que pacientes internados com Covid-19 podem desenvolver trombose por causa do vírus, e que o problema é facilitado pelo fato de ficarem deitados no leito durante muito tempo. O papel do fisioterapeuta, entre muitos outros, é tentar evitar que isso aconteça sempre mobilizando o paciente e, quando possível, caminhando com ele. Ela recomenda ainda atenção a possíveis sintomas na panturrilha (onde, muitas vezes, ocorre o primeiro sinal do trombo) e qualquer relato de dor.

Para o paciente (recém-curado da Covid) que está em em casa, um dos melhores exercícios de prevenção é bem simples e fácil: basta apoiar mãos em uma superfície ou na própria parede, ficar na ponta do pé e voltar. Pode-se fazer três séries de dez, três vezes ao dia. Parece bobo, mas o gastrocnêmio (músculo da panturrilha) é um dos músculos mais fortes do corpo, no qual, se o sangue dessa circulação for bombeado, é possível evitar a formação do trombo. Claro que esse paciente em casa não deve fadigar fazendo esse exercício. O importante é não ficar deitado durante muito tempo, e sempre que puder, caminhar pela casa – completa, recomendando que cada um consulte um médico para ajustar o tratamento e a intensidade da atividade física de acordo com seu caso.

Covid-19 oferece muito mais risco que a vacina

Estudos afirmam que a vacina contra a Covid-19 oferece um risco pequeno de trombose, muito menor do que o oferecido pela doença — Foto: Istock Getty Images
Estudos afirmam que a vacina contra a Covid-19 oferece um risco pequeno de trombose, muito menor do que o oferecido pela doença — Foto: Istock Getty Images

Os trombos normalmente têm origem nas pernas, causando infarto ou embolia pulmonar, por exemplo, mas também podem acontecer nas veias cerebrais, causando AVC. Para muitas pessoas, há um temor de sofrer com a trombose por causa da Covid-19, já que trombos são uma das sequelas possíveis da doença. Mas há também o medo de que o problema seja causado pela própria vacina contra a covid. No entanto, estudos recentes comprovam que o risco é muito maior em quem contrai o vírus do que em quem se vacina contra ele.

Pesquisadores da Universidade de Oxford mostram que o risco de trombose venosa cerebral em pessoas com Covid-19 é dez vezes maior do que naquelas que foram vacinadas com vacinas como Pfizer, Moderna e AstraZeneca, esta última produzida no Brasil pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Em um outro estudo publicado no British Medical Journal em agosto deste ano, concluiu-se que o risco de uma rara coagulação do sangue é significativamente maior como resultado da infecção de Covid-19 do que da vacinação contra o vírus. Pesquisadores da Universidade de Oxford, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e de várias outras universidades e hospitais britânicos analisaram dados de mais de 29 milhões de pessoas que receberam sua primeira dose de a vacina Oxford-AstraZeneca ou a vacina Pfizer-BioNTech. O estudo mostrou que, num período de 28 dias após a 1ª dose da vacina de Oxford/ AstraZeneca, 66 pessoas foram internadas ou morreram de trombose e embolia em comparação com os 12.614 indivíduos que foram afetados pelo problema após terem diagnóstico clínico com teste laboratorial positivo para o vírus SARS-Cov-2.

– Além disso, cerca de 143 pessoas foram hospitalizadas ou morreram de acidente vascular cerebral (derrame) isquêmico nos 28 dias após a primeira dose da vacina Pfizer-BioNTech, em comparação com 1.699 que tiveram diagnóstico clínico com teste laboratorial positivo para o vírus SARS-Cov-2, mostrando, portanto, que é muito mais seguro se vacinar do que estar exposto e sujeito a uma evolução grave e desfavorável com complicações terríveis e possivelmente fatais da Covid-19 – reforça Sahagoff.

O médico explica que a infecção pelo SARS-CoV-2 pode causar um processo inflamatório muito exacerbado devido à chamada “tempestade de citocinas”. Citocinas são proteínas que regulam a resposta imunológica e que têm a função de: regular a duração e a intensidade das respostas imunológicas; “recrutar” mais células para as áreas onde se desenvolvem respostas; e induzir a geração e maturação de novas células. Ou seja, o corpo humano tenta se defender daquele “invasor” e libera diversos mecanismos de defesa que, por sua vez, podem causar uma síndrome inflamatória muito grande.

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– Essa inflamação acaba causando uma trombose da microcirculação, e com isso ocorre uma piora não somente nos pulmões, mas também no fígado, coração e até nas extremidades mais distais do corpo, como mãos e pés – explica.

Existem vários trabalhos relacionando o aumento das proteínas inflamatórias à inflamação intravascular. Essa microtrombose faz com o que o paciente piore como um todo, especialmente os rins e o pulmão. No Brasil, um artigo publicado na revista científica do Instituto Oswaldo Cruz chama a atenção para a ligação entre o aumento da formação de coágulos sanguíneos (trombos), que podem obstruir a circulação sanguínea, e o Sars-CoV-2. Os autores propõem que sua classificação seja alterada para que a Covid-19 seja a primeira infecção a ser considerada uma febre viral trombótica.

– Como existe um mecanismo de defesa natural do corpo, este produz mais vasoconstrição das extremidades a fim de preservar órgãos nobres como o cérebro, o coração, os rins e o fígado. Como esses vasos também já estão contraídos por conta do mecanismo de defesa e do aumento das citocinas, quanto menor ficam, mais suscetíveis eles estão para formar coágulos – comenta Sahagoff.

O especialista lembra que a Covid-19 não é só ocasionada por um vírus que ataca o pulmão, mas é uma doença inflamatória trombogênica, na qual a resposta do nosso próprio organismo pode muitas vezes piorar a situação clínica do paciente ocasionando trombose da circulação pulmonar, dos membros inferiores, cardíaca e até cerebral.

Entendendo a trombose

Um trombo ou coágulo sendo formado em uma veia — Foto: Istock Getty Images
Um trombo ou coágulo sendo formado em uma veia — Foto: Istock Getty Images

  • O que é?
    Obstrução (entupimento) de um vaso. Essa oclusão pode ocorrer numa artéria (vaso sanguíneo que leva o sangue do coração para as extremidades do corpo) ou numa veia (vaso sanguíneo que leva o sangue dos pés, das mãos e da cabeça de volta ao coração).
  • Onde ocorre?
    No caso da Trombose Venosa, ou flebite, ou tromboflebite ela pode ser superficial, quando o coágulo está em uma veia no subcutâneo (tecido gorduroso abaixo da pele); ou profunda, quando a veia acometida está dentro da musculatura das pernas ou dos braços, no pescoço, dentro do abdômen ou do tórax. Os locais da trombose venosa profunda mais comum são as pernas (mais de 90% dos casos) e os locais mais frequente da trombose superficial são os braços, devido, principalmente, às punções venosas.
  • Qual estimativa do país?
    Estima-se que cerca de 180.000 novos casos de trombose venosa profunda (TVP) ocorrem no Brasil a cada ano.
  • Quais as causas e fatores de risco?
    A formação deste coágulo dentro da veia ocorre por alguns fatores como lesão endotelial (parte mais interna da veia), dificuldade do sangue circular (estase venosa) e o aumento da viscosidade sanguínea (sangue mais grosso).
  • Quais sintomas?
    Os sintomas mais comuns são inchaço na perna, dor na panturrilha (batata da perna), calor na perna (aumento de temperatura local), vermelhidão.
  • Quem é mais atingido?
    É uma enfermidade mais frequente em pessoas acamadas ou com dificuldade de mobilidade, em uso de anticoncepcionais ou tratamento hormonal associado ao hábito do tabagismo, com presença de varizes de grosso calibre, pacientes com insuficiência cardíaca, tumores malignos, obesidade, trombofilia (doença genética que predispõe a trombose) ou com história prévia de trombose venosa.
  • Outras situações que causam trombose:
    Cirurgias de médio e grande portes, principalmente as ortopédicas e as abdominais, infecções graves, traumatismos, a fase final da gestação e o puerpério (pós-parto) e qualquer outra situação que obrigue a uma imobilização prolongada (paralisias, infarto agudo do miocárdio, viagens aéreas longas). Entre as condições predisponentes é importante citar ainda a idade avançada e os pacientes com anormalidade genética do sistema de coagulação. Recentemente, a Covid-19 entrou nessa lista.
  • Como é feito o tratamento?
    É feito com substâncias anticoagulantes, que impedem a formação do trombo e a evolução da trombose, ou fibrinolíticos, que destroem o trombo. Mais recentemente, e em situações selecionadas, o tratamento da TVP pode ser feito na própria residência do paciente, usando-se as heparinas de baixo peso molecular ou os novos anticoagulantes orais. Esses medicamentos só devem ser tomados após consultar um angiologista ou um cirurgião vascular, que é o especialista para traçar o melhor tratamento.

– A trombose venosa profunda pode ser de extrema gravidade na fase aguda, causando embolias pulmonares muitas vezes fatais (embolia pulmonar é causada pela fragmentação dos coágulos e a migração destes até os pulmões, entupindo as artérias pulmonares e gerando graves problemas cardíacos e pulmonares). Na fase crônica, após alguns anos, os principais problemas são causados pela inflamação da parede das veias que, ao cicatrizarem, podem levar a um funcionamento deficiente destes vasos sanguíneos – alerta Sahagoff.

Fontes: Isadora Guasti é formada em fisioterapia na UFRJ, possui pós-graduação em fisioterapia neurofuncional, curso avançado de PNF (Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva) e atende nas clínicas CIRTA e HABILITAR.
João Sahagoff é médico angiologista e cirurgião geral, professor do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Mestre em Cirurgia Geral (Setor Vascular) pela UFRJ. Pós-graduação em Administração Hospitalar pela UERJ. Pós-graduação em Medicina Legal e Perícias Médicas pela USP. Presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular do Rio de Janeiro (SBACV-RJ) gestão 2020-2021.

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