{"id":23835,"date":"2024-07-29T10:20:24","date_gmt":"2024-07-29T13:20:24","guid":{"rendered":"https:\/\/imais.online\/portal\/?p=23835"},"modified":"2024-07-29T10:20:25","modified_gmt":"2024-07-29T13:20:25","slug":"como-transformar-a-solidao-em-solitude-a-medida-que-envelhecemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/imais.online\/portal\/como-transformar-a-solidao-em-solitude-a-medida-que-envelhecemos\/","title":{"rendered":"Como transformar a solid\u00e3o em solitude \u00e0 medida que envelhecemos?"},"content":{"rendered":"<div class=\"imais-before-content-placement\" id=\"imais-2509390956\"><script async src=\"\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js?client=ca-pub-8787528412751566\" crossorigin=\"anonymous\"><\/script><ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display:block;\" data-ad-client=\"ca-pub-8787528412751566\" \ndata-ad-slot=\"\" \ndata-ad-format=\"auto\"><\/ins>\n<script> \n(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); \n<\/script>\n<\/div>\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Em sua coluna para a Vogue, o psiquiatra Filipe Batista fala sobre os riscos \u00e0 sa\u00fade de se sentir isolado e como apreciar a pr\u00f3pria companhia pode ajudar a envelhecer bem<\/h2>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio: a Ba\u00eda de Todos os Santos, enquadrada pelo contorno da sacada do pr\u00e9dio antigo. Um dos \u00faltimos restantes, em Salvador, a guardar um charme decadente \u2014 no melhor sentido, como defendem os franceses \u2014 de originalidade. Erguido nos anos 60, o edif\u00edcio permanece tal qual era \u2014 ou muito parecido \u2014 na \u00e9poca de sua constru\u00e7\u00e3o, havendo resistido \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es&nbsp;<em>retrofit&nbsp;<\/em>de gosto duvidoso que violentam a, nem sempre compreendida, identidade singular desses velhinhos cheios de bossa.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma parede descascada, uma madeira pu\u00edda, um piso de taco solto, e voil\u00e0, v\u00e3o direto para a harmoniza\u00e7\u00e3o: boost de revestimentos espelhados, MDF para devolver sustenta\u00e7\u00e3o e t\u00f4nus, e, por fim, o levanta defunto, um protocolo diamante, que consiste na aplica\u00e7\u00e3o de preenchimentos \u00e0 base de porcelanato.<\/p>\n\n\n\n<p>A dona do apartamento, no simp\u00e1tico pr\u00e9dio-resist\u00eancia, havia me convidado para tomar um caf\u00e9 ao entardecer, durante minha visita mais recente \u00e0 cidade. Uma sombra, cada vez mais escura, assentava sobre os m\u00f3veis da sala. Ela acendeu as lumin\u00e1rias e os abajures \u2014 eram v\u00e1rios. N\u00e3o me agrada a luz direta, ela disse; a mim tampouco, concordei. Preservemos o mist\u00e9rio da meia-luz.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o nos encontr\u00e1vamos havia anos, apenas por mensagens no celular. Est\u00e1 mais velha, assumi intimamente, com alguma culpa. Para atenu\u00e1-la, tomei como verdade que, assim como Simone de Beauvoir, ela igualmente defenderia o direito de ser chamada de velha, sem o peso costumeiro atribu\u00eddo \u00e0 palavra.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como o pr\u00e9dio, a dona do apartamento tamb\u00e9m tinha seu charme, pensei, tentando criar para mim uma justificativa que suavizasse a aspereza da minha avalia\u00e7\u00e3o. Veja esta foto \u2014 ela disse apanhando um porta-retrato na estante \u2014 &#8220;Sou eu com 20 e poucos anos, linda, n\u00e3o acha?&#8221; Foi como se dissesse: &#8220;Eu me reconhe\u00e7o no corpo desta de 20 anos, me reconhe\u00e7o na mulher da foto&#8221;. Ou ent\u00e3o: &#8220;Sinto saudade deste corpo que tive, da mulher que fui&#8221;. Ou um pouco dos dois; ou apenas: &#8220;Pare de me enxergar como uma velha&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Como ela p\u00f4de mostrar a foto justamente enquanto eu media a profundidade de suas rugas, sua maneira mais vagarosa de caminhar? Deixei escapar minha face julgadora ou seria bruxaria de psiquiatra experiente \u2014 minha anfitri\u00e3 tamb\u00e9m \u00e9 psiquiatra, das boas (das velhas?)?<\/p>\n\n\n\n<p>Ela estava sozinha em casa quando me recebeu. Mulher muito s\u00e1bia, muito culta, muito velha \u2014 velha! \u2014 e sozinha em casa. A vista da sacada dava para a Ba\u00eda de Todos os Santos, muitos livros na estante, o direito \u00e0 meia-luz: tudo me parecia, plasticamente, a maneira mais digna de encarar a solid\u00e3o e a velhice. Ser sozinho assim era melhor, envelhecer assim era melhor. Eu havia levado junto meu filho e minha esposa. Ele estava particularmente inquieto, vasculhava indiscretamente cada objeto, cada canto do apartamento cheio de tesouros escondidos, em vez de apreciar a conversa entre os adultos, o car\u00e1ter adulto daquele instante.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tinha cinco (!) anos. A velha amiga entenderia o seu comportamento err\u00e1tico, possivelmente enxergaria beleza naquela fam\u00edlia atrapalhada. Me apeguei a esta ideia. Todas as fam\u00edlias com crian\u00e7as pequenas parecem sempre um pouco atrapalhadas. Vistas de fora, at\u00e9 transmitem beleza. Vistas de fora. A beleza de perseverar, com alguma gra\u00e7a e boa vontade, quando o caos se instala de repente.<\/p>\n\n\n\n<p>Deixa ele mexer, est\u00e1 investigando, dizia minha amiga, compreensiva, reconhecendo em n\u00f3s a tal beleza ca\u00f3tica, imaginei. Enquanto a m\u00e3e, visivelmente mais indignada com a falta de modos dele, repreendia-o com o olhar, eu me perdia na ideia de que minha velha amiga estava ficando mais velha e solit\u00e1ria; na companhia dos livros que ajudaram a fundar nossa amizade, mais de uma d\u00e9cada atr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela est\u00e1 velha e sozinha, eu repetia para mim, ridiculamente. Sentir-se cronicamente desconectado dos outros pode afetar a estrutura e a fun\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro, aumentar o risco de doen\u00e7as neurodegenerativas, cardiovasculares, aumentar o risco de ansiedade, depress\u00e3o, dem\u00eancia. Tudo isso disparava em minha mente. A suscetibilidade da pessoa mais velha \u00e0 solid\u00e3o, os achados cient\u00edficos sobre solid\u00e3o. Como evit\u00e1-los sendo psiquiatra? A meu contragosto, minha amiga irradiava um convencimento seguro sobre si, estampava uma velhice vigorosa e convicta, uma gravidade ao estar no mundo, inteira e s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquilo foi me causando afli\u00e7\u00e3o. Meu filho tocando o terror, e eu perplexo perante a solid\u00e3o da minha amiga. Eu insistia nisso, e ela tentava me tranquilizar. Ostentava aquela solid\u00e3o bonita. Ela queria me lembrar que se sentia jovem, mais jovem que muitos jovens. Que as horas que passava sozinha n\u00e3o eram de solid\u00e3o, mas na pr\u00f3pria e agrad\u00e1vel companhia. Que logo mais seu marido chegaria em casa. Que as hist\u00f3rias dos pacientes que atendia tamb\u00e9m eram suas. Que as fotos dos netos que moravam fora a alimentavam e davam a sua vida um sentido maior: o de uma saga geracional. Que seus alunos ainda a instigavam como antes. Que a Ba\u00eda de Todos os Santos, vista da sacada, ainda a surpreendia, como na primeira vez que pisou os p\u00e9s em Salvador.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela me olhava de uma maneira pl\u00e1cida, segura, como se quisesse reafirmar em mim o que nem eu reconhecia mais. Eu mesmo j\u00e1 me sentia mais velho, menos aceso que antes, mais sozinho na companhia de outras pessoas. Um miser\u00e1vel velho solit\u00e1rio. Mas ela insistia, apenas com o olhar. Queria que eu me convencesse de estar enganado.<\/p>\n\n\n\n<p>Anoiteceu. Seu marido chegou, eles nos levaram at\u00e9 a porta. Enquanto aguard\u00e1vamos o elevador, elogiei a beleza do pr\u00e9dio antigo: tra\u00e7os arquitet\u00f4nicos originais restam preservados, apesar das paredes descascadas. Os moradores novos querem mudar tudo, fazer uma reforma das grandes, ela disse contrariada. Nos despedimos com abra\u00e7os afetuosos e a promessa de um novo encontro. Deixei o pr\u00e9dio antigo olhando para tr\u00e1s. Ainda parec\u00edamos uma fam\u00edlia atrapalhada. Minha amiga, vista de fora, parecia mais jovem. Ela era linda e tinha 20 e poucos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Fonte Vogue <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em sua coluna para a Vogue, o psiquiatra Filipe Batista fala sobre os riscos \u00e0 sa\u00fade de se sentir isolado e como apreciar a pr\u00f3pria companhia pode ajudar a envelhecer bem O cen\u00e1rio: a Ba\u00eda de Todos os Santos, enquadrada pelo contorno da sacada do pr\u00e9dio antigo. 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