Saúde
Por que adolescentes se cortam? Entenda as causas da automutilação e como ajudar

A automutilação nem sempre indica desejo de morrer, mas é um sinal de alerta importante para a saúde mental. Entenda como identificar e saiba como falar sobre isso com o seu filho
Às vezes, nossas dores e aflições parecem intensas demais para expressarmos em palavras. Na adolescência, quando o cérebro ainda é imaturo, sobretudo quando se trata de controle de impulsos e de emoções, o sofrimento pode ser ainda maior, assim como a sensação de solidão. É aquele sentimento de que nem adianta falar, porque ninguém vai entender mesmo.
Nesses casos, alguns jovens recorrem a outro escape, machucando a si mesmos. “A dor física é usada como um recurso para aliviar um sofrimento emocional que, para aquele adolescente, parece insuportável”, explica a psiquiatra Anne Brito, da infância e adolescência pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP (FM-USP).
O comportamento está ligado a dificuldades de regulação emocional. Ou seja, o adolescente não consegue lidar com sentimentos intensos como angústia, culpa, raiva ou vazio. Fatores biológicos, como maior impulsividade, e externos, como experiências traumáticas, falta de acolhimento emocional, bullying e pressão por desempenho, também contribuem. Transtornos como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático podem estar associados.
A automutilação, quando ocorre, costuma começar no início da adolescência, entre 12 e 14 anos, com pico entre 15 e 17. É mais frequente em meninas, enquanto nos meninos pode aparecer de forma mais agressiva, como socar paredes ou objetos. Jovens que se sentem excluídos, vivem instabilidade familiar ou têm dificuldade para expressar emoções apresentam um risco ainda maior.
Nem sempre é tentativa de suicídio
Ao contrário do que muita gente costuma associar, é importante destacar que a automutilação não é, necessariamente, uma tentativa de suicídio. “Na automutilação, a intenção não é morrer. O objetivo é um alívio imediato da dor emocional. Os jovens querem parar de sofrer, e não parar de viver”, afirma a psiquiatra. Ainda assim, é um comportamento que exige atenção: adolescentes que se automutilam têm maior risco de tentativa de suicídio e precisam de avaliação profissional.
Sinais de alerta para os pais
Como muitos adolescentes tentam esconder as lesões, não é fácil identificar que seu filho está se machucando. Por isso, é importante observar mudanças de comportamento, como:
- Uso constante de roupas com mangas compridas, mesmo no calor
- Recusa em ir à praia, piscina ou fazer aulas de educação física
- Manchas de sangue em roupas ou lençóis
- Isolamento social
- Longos períodos trancado no quarto ou banheiro
Esses sinais podem indicar sofrimento emocional e merecem investigação cuidadosa e acolhedora.
Como abordar o adolescente?
Descobrir que seu filho ou um adolescente próximo está praticando a automutilação é um choque, mas é importante evitar punições ou julgamentos. O ideal é escolher um momento tranquilo e demonstrar preocupação genuína. Frases como “isso é frescura”, “você quer chamar atenção” ou “você tem tudo” devem ser evitadas. Esse tipo de comentário só aumenta a culpa e faz o jovem esconder ainda mais o comportamento – e o sofrimento. Reforça aquela ideia que ninguém o compreende, porque invalida suas ações e emoções.
Dizer apenas “não se corte” também não resolve. “É como tirar a boia de alguém que está se afogando sem ensinar a nadar”, explica a psiquiatra. O adolescente precisa aprender formas mais saudáveis de lidar com emoções intensas. A escuta e a validação são os primeiros passos.
Quando procurar ajuda urgente
A família deve buscar ajuda profissional sempre que houver automutilação e com urgência maior se houver:
- Ferimentos profundos ou numerosos
- Escalada na frequência das lesões
- Falas de desesperança (“eu não aguento mais”)
- Menções à morte ou desejo de desaparecer
Como ajudar?
O tratamento envolve equipe multidisciplinar, com psicoterapia, avaliação psiquiátrica e participação ativa da família. Os pais precisam ser mais porto seguro do que vigilantes. Em vez de fiscalizar o corpo do adolescente, a preocupação deve ser abrir espaço para diálogo e acolhimento.
A principal forma de prevenção, segundo a especialista, é a educação emocional: ensinar o jovem a identificar sentimentos, nomear emoções e buscar estratégias saudáveis para lidar com o sofrimento, antes que ele sinta que precisa recorrer ao próprio corpo como válvula de escape.
Fonte Revista Crescer