Internacional
Tarifaço dos EUA pode afetar emprego, salários e preços; veja os impactos no dia a dia
Especialistas avaliam que o mercado de trabalho será o primeiro a sentir os efeitos da medida
A sobretaxa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre exportações brasileiras, que entra em vigor em 22 de julho de 2026, deve trazer impactos à população, em especial no mercado de trabalho, na renda e, a longo prazo, nos preços.
Embora os efeitos não sejam imediatos para a maioria dos consumidores, especialistas ouvidos pelo R7 avaliam que trabalhadores de setores exportadores podem sentir as primeiras consequências.
Durante coletiva de imprensa, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Marcio Elias Rosa, afirmou que o governo prepara medidas para apoiar os setores mais atingidos, como madeira, máquinas, equipamentos elétricos, móveis, produtos cerâmicos, calçados e açúcar. Entre as ações está o incentivo à diversificação de mercados para reduzir a dependência das exportações aos Estados Unidos.
Para o economista e professor do Ibmec Brasília Renan Silva, o impacto para a população ocorrerá de forma indireta e localizada, especialmente em regiões cuja economia depende da indústria exportadora.
“O cidadão sentirá os reflexos principalmente por meio do mercado de trabalho, com demissões pontuais e congelamento de contratações em cidades cuja economia gira em torno das indústrias exportadoras afetadas”, afirma.
Além das demissões, ele avalia que empresas afetadas poderão reduzir investimentos e limitar reajustes salariais diante da queda nas receitas.
“O risco de demissões e redução de renda é real e imediato para cadeias produtivas específicas. Entidades como a Abicalçados e a Abit (têxtil) já alertam que a sobretaxa inviabiliza margens de lucro, forçando reestruturações e cortes de funcionários”.
Preços
Segundo o especialista, no curto prazo alguns produtos podem até ficar mais baratos no mercado interno. Isso porque empresas que perderem espaço nos Estados Unidos tendem a redirecionar parte da produção para o consumo doméstico.
“Pode haver uma pressão deflacionária interna, uma vez que os produtores que perderem espaço nos EUA tendem a direcionar o excedente para o mercado doméstico, barateando temporariamente alguns produtos, como roupas e calçados”, explica.
Por outro lado, Renan alerta que, caso a redução das exportações diminua significativamente a entrada de dólares no país, o real pode se desvalorizar. Nesse cenário, produtos importados e insumos utilizados pela indústria brasileira ficariam mais caros, elevando a inflação no longo prazo.
Regiões mais vulneráveis
Os impactos tendem a se concentrar nas regiões Sul e Sudeste. De acordo com Renan Silva, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo concentram polos industriais voltados para os setores de calçados, têxtil, madeira e metalurgia, que devem sentir os efeitos da nova tarifa. Em São Paulo, o cinturão manufatureiro também pode ser afetado, principalmente nos segmentos de máquinas e autopeças.
Na avaliação do professor de Economia do Ibmec-RJ Gilberto Braga, o principal reflexo para a população também deve ocorrer por meio da redução da atividade econômica dessas empresas.
“Esses setores, exportando menos, se não conseguirem redirecionar a produção para outros mercados internacionais, vão diminuir a produção e talvez precisem cortar pessoal”, afirma.
Segundo Braga, a queda nas vendas reduz a receita das empresas e gera impactos indiretos sobre a economia, afetando renda, investimentos e consumo.
Reação do governo
O governo federal informou que mantém diálogo com as autoridades norte-americanas desde o início da investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos. Segundo nota oficial, foram realizadas mais de 30 reuniões entre os dois países desde julho de 2025.
O Executivo também afirma que já possui mecanismos para proteger as empresas brasileiras, reforçará o Plano Brasil Soberano e iniciará imediatamente os procedimentos previstos na Lei da Reciprocidade, além de retomar o tema na OMC (Organização Mundial do Comércio).
Para Gilberto Braga, além da negociação diplomática, uma das alternativas será ampliar mercados para as exportações brasileiras.
“O Brasil deve continuar negociando para tentar eliminar as barreiras e buscar novos mercados. União Europeia, China e Índia aparecem como os principais destinos com potencial para absorver parte da produção que hoje vai para os Estados Unidos”, avalia.
Produtos ficaram de fora
Apesar da sobretaxa, o USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) publicou uma lista com mais de 2 mil produtos isentos da medida.
Entre os itens que ficaram de fora estão carne bovina, café, laranja, suco de laranja, mel orgânico, hidróxido de alumínio, sucata de ferro e aço, peixes e frutos do mar, couros, alguns produtos de madeira, medicamentos e insumos farmacêuticos.
Segundo o governo norte-americano, esses produtos foram excluídos porque são considerados matérias-primas importantes para evitar problemas de abastecimento e impactos na economia dos Estados Unidos.
Fonte R7

