Luto
O adeus a um Mestre: Benedito Ruy Barbosa e o legado de “O Rei do Gado”
A teledramaturgia brasileira despede-se de um de seus mais notáveis contadores de histórias. Benedito Ruy Barbosa, o autor que imortalizou o Brasil profundo em nossas telas, faleceu aos 95 anos nesta terça-feira, 7 de julho de 2026, na cidade de São Paulo. Internado no Hospital do Coração (HCor), o dramaturgo vinha enfrentando desafios de saúde desde o início do ano, incluindo uma infecção urinária e complicações decorrentes de insuficiência renal crônica, além de conviver com o mal de Alzheimer.
Nascido em 17 de abril de 1931, no município paulista de Gália, Benedito Ruy Barbosa construiu uma carreira que se confunde com a própria história da televisão no Brasil. Suas obras sempre se destacaram por um olhar atento às raízes rurais do país, abordando com sensibilidade as complexidades sociais, as imigrações e as sagas familiares. Ao longo de décadas, ele nos presenteou com narrativas memoráveis, como “Cabocla”, “Sinhá Moça”, “Pantanal”, “Renascer”, “Terra Nostra” e “Velho Chico”.
Entre tantas criações marcantes, “O Rei do Gado” ocupa um lugar de honra na memória afetiva do público. Exibida originalmente entre 1996 e 1997, a novela transformou-se em um fenômeno de audiência e em um marco da reflexão social na TV. A trama, que narrava a rivalidade histórica entre as famílias Mezenga e Berdinazzi, ia muito além do romance proibido entre Enrico e Giovanna, ou da paixão do latifundiário Bruno Mezenga pela boia-fria Luana. Com maestria, Benedito trouxe para o horário nobre debates cruciais sobre a reforma agrária e a luta pela terra, temas que, até hoje, ressoam na sociedade brasileira.
A grandiosidade de “O Rei do Gado” não se limitou ao seu texto magistral, mas também à sua produção esmerada. Sob a direção de Luiz Fernando Carvalho, a novela percorreu o interior do Brasil em busca de cenários que traduzissem a essência da história. Cidades como Itapira, Ribeirão Preto e Amparo, em São Paulo, além de Guaxupé, em Minas Gerais, e Aruanã, em Goiás, serviram de palco para a saga rural.
A partida de Benedito Ruy Barbosa deixa um vazio imensurável na cultura nacional. Ele foi o cronista de um Brasil autêntico, que soube traduzir em palavras as dores, as alegrias e a força do homem do campo. Suas histórias continuarão vivas, não apenas nas reprises de sucesso, mas na herança cultural que ele deixa para as futuras gerações de dramaturgos e telespectadores.
Ao nos despedirmos deste gigante da nossa televisão, fica a certeza de que seu legado permanecerá tão vasto e duradouro quanto as terras que ele tão bem descreveu. Que sua obra continue a nos inspirar a olhar para as nossas raízes com o respeito e a admiração que elas merecem.

