Saúde
Canetas emagrecedoras: por que podem causar flacidez no rosto e como tratar
A redução acelerada de gordura corporal pode alterar a sustentação da face e aumentar a procura por alternativas em estética médica
O uso de medicamentos à base de análogos de GLP-1, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”, vem se expandindo rapidamente e já provoca efeitos que vão além da perda de peso. Nas redes sociais, o tema aparece em relatos de transformação física, entrevistas com celebridades e debates sobre saúde e estética, enquanto nos consultórios dermatológicos cresce a procura por soluções para um efeito colateral cada vez mais observado: a flacidez facial após emagrecimentos acelerados.
Segundo especialistas, a perda rápida de gordura corporal pode alterar de forma significativa a estrutura de sustentação do rosto. “Quando alguém perde muito peso em pouco tempo, o rosto perde os ‘coxins’ de gordura profunda, que funcionam como pilares de sustentação da face. Sem essa base, a pele sobra”, explica a dermatologista Glauce Eiko.
O impacto não se limita ao volume facial. A qualidade da pele também pode ser afetada, especialmente em processos de emagrecimento mais intensos..
“Além disso, o estiramento prévio da pele e o processo rápido de emagrecimento podem comprometer a qualidade das fibras de colágeno e elastina, deixando o tecido com aspecto murcho, desidratado e menos elástico. Quando o paciente não tem indicação ou não quer realizar a cirurgia plástica, existem tecnologias e injetáveis que podem ajudar nos consultórios, em associação aos cuidados diários com dermocosméticos”, acrescenta o Dr. Abdo Salomão Jr.
A velocidade da perda de peso aparece como um dos fatores centrais nesse processo. “Quanto mais rápida a perda de peso, mais rápida é a perda volumétrica e consumo de colágeno e elastina, com menor tempo para recuperação natural. A idade pode interferir, pois em pacientes que já iniciaram um processo de envelhecimento, a perda de peso pode intensificar os sinais”, diz a Dra. Sylvia Ypiranga.
Ela acrescenta que, até o momento, não há evidências consistentes de influência genética nesse tipo de resposta: “Quanto à qualidade prévia da pele, se considerarmos procedimentos realizados previamente, que induzem a produção de colágeno, o efeito dos análogos de GLP-1 e GIP podem ser menos evidentes.”
Nos consultórios, a abordagem para esses casos combina diferentes tecnologias. Entre elas, o dispositivo Atria II, que reúne ultrassom microfocado, radiofrequência e campo eletromagnético.
“O Atria II entrega pontos de coagulação que ajudam na formação do colágeno por meio do ultrassom microfocado. A radiofrequência bipolar atua superficialmente, o ultrassom trabalha as camadas médias e profundas e o campo eletromagnético vai trabalhar a musculatura. Isso traz um resultado impactante para a flacidez”, destaca o Dr. Abdo Salomão. “O procedimento pode ser associado com toxina botulínica, bioestimuladores e preenchedores”, afirma.
Além dos procedimentos realizados em consultório, os dermocosméticos passaram a fazer parte da rotina de cuidados de pacientes, com atuação complementar. “Os cremes não substituem os procedimentos injetáveis ou cirúrgicos, pois atuam principalmente na epiderme e na derme superficial. Mas eles funcionam como verdadeiros arquitetos da superfície da pele”, pontua a Dra. Glauce.
Segundo ela, esses produtos podem atuar em diferentes frentes, como reforço da barreira cutânea, hidratação e estímulo indireto da produção de colágeno. “Podemos falar em efeito ‘solo e semente’: o Sculptra (ácido polilático) ou o Radiesse (hidroxiapatita de cálcio) são as sementes que estimulam o colágeno na derme; o dermocosmético é o fertilizante que prepara a derme superficial”, completa.
No mesmo contexto, surgem fórmulas desenvolvidas para atuar em processos associados à perda de sustentação da pele após emagrecimento ou envelhecimento. A proposta, segundo especialistas, é complementar os cuidados feitos em consultório e a rotina diária de skincare.
Segundo o farmacêutico Maurizio Pupo, o ativo atua em camadas mais profundas da pele. “Assim, o sérum é capaz de combater o fenômeno conhecido como derretimento facial ou ‘Ozempic Face’, causado pela perda de sustentação da pele após emagrecimento rápido ou envelhecimento”, comenta.
A fotoproteção segue como uma das principais recomendações para preservar a estrutura cutânea ao longo do tempo. “A radiação ultravioleta acelera a degradação do colágeno e da elastina. O uso diário de protetor solar ajuda a reduzir perdas adicionais de firmeza”, observa a Dra. Glauce.
Nos casos mais avançados, nem sempre os procedimentos não cirúrgicos são suficientes, e a avaliação para intervenções cirúrgicas pode entrar na discussão clínica. “É importante que essa decisão envolva o médico e o paciente”, alerta a Dra. Sylvia.
A cirurgiã plástica Beatriz Lassance relata que o perfil dos pacientes tem mudado com o aumento do uso desses medicamentos. “Temos visto pacientes jovens que estão emagrecendo muito com as canetas emagrecedoras. A perda de gordura na face confere ar mais envelhecido. Podemos resolver com enxerto de gordura, uma plicatura leve ou em alguns casos o próprio deep plane facelift, uma técnica em que descolamos planos profundos liberando ligamentos, que seguram o tecido mais flácido, e reposicionamos todos os tecidos. O descolamento da pele é menor, o que deixa a recuperação mais rápida”, detalha.
Ela reforça, no entanto, que o cuidado estético não se limita a intervenções pontuais. “Hoje, o lifting é parte de um plano de rejuvenescimento contínuo, não um evento isolado. Hábitos saudáveis, controle da qualidade cutânea com skincare adequado e uso de tecnologias e proteção solar também são fundamentais”, finaliza.
Fonte: O Globo

