Saúde
Celular à mesa? Tempo de tela é associado à má alimentação
Estudo com adolescentes associa maior tempo de tela ao consumo de mais açúcar e menos frutas e verduras
Celular ou tablet apoiado à mesa, desenho ligado na televisão e a criança comendo sem tirar os olhos da tela. Uma cena cada vez mais comum nas famílias ganha um novo sinal de alerta diante de um estudo publicado em junho deste ano na revista científica Pediatric Research.
A pesquisa analisou dados de 6.485 adolescentes, entre 10 e 14 anos, nos Estados Unidos. Os participantes passavam, em média, cerca de sete horas por dia diante das telas. Um ano depois, os pesquisadores encontraram uma associação entre maior exposição às telas e uma alimentação de pior qualidade, com menor consumo de frutas, verduras, grãos integrais, leguminosas e fibras e maior ingestão de açúcar adicionado.
O tema ganha destaque durante o Setembro Laranja, campanha de combate à obesidade infantil promovida pela Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP).
Para a pediatra Anna Dominguez Bohn, presidente do Núcleo de Estudos da Criança com Deficiência da SPSP, o problema vai além do tempo que crianças e adolescentes deixam de se movimentar enquanto permanecem diante dos dispositivos.
“As telas são um problema em várias esferas e essa é mais uma delas. Elas favorecem o sedentarismo, fazendo com que as crianças passem tempo demais no videogame, no celular ou na televisão em detrimento da atividade física e das brincadeiras ao ar livre. Durante as refeições, podem trazer ainda uma dificuldade muito grande na relação com o prazer de comer e na regulação da fome e da saciedade”, explica.
Os pesquisadores apontam algumas hipóteses para a relação encontrada. Comer diante das telas pode tornar a alimentação mais distraída, reduzindo a atenção ao que e quanto se consome. TV, vídeos e redes sociais também aumentam a exposição à publicidade e a conteúdos relacionados a alimentos ricos em açúcar, gordura e calorias. O tempo de tela também pode favorecer o hábito de beliscar e o consumo de alimentos mais práticos e ultraprocessados.
Paladar começa a ser construído cedo
Embora o estudo tenha analisado adolescentes, Anna chama a atenção para a importância da formação dos hábitos alimentares desde os primeiros anos de vida. “O paladar da criança está em construção. Quanto mais cedo ela se acostuma ao excesso de sal e açúcar, mais difícil pode ser a aceitação de outros sabores. Por isso, é importante que as famílias compreendam essas consequências e façam escolhas mais conscientes no dia a dia”, afirma.
Segundo a pediatra, a presença constante de celulares, tablets ou televisão durante as refeições pode acabar sendo incorporada à rotina familiar como algo natural. “Desde muito novas até a adolescência, vemos crianças com telas durante as refeições como se isso fosse algo normal. É muito importante que as famílias conheçam os impactos e as consequências a curto, médio e longo prazo do uso das telas e de uma alimentação ruim”, ressalta.
Obesidade é uma doença multifatorial
A médica lembra que a obesidade não deve ser tratada simplesmente como resultado de escolhas individuais. Trata-se de uma doença complexa e multifatorial, influenciada por diferentes aspectos genéticos, ambientais e comportamentais.
Na infância e na adolescência, os impactos podem alcançar diferentes dimensões da vida. “A obesidade gera impacto na saúde mental, com questões de bullying e autoestima, e também na saúde física, com dificuldade na prática de esportes e problemas de saúde que antes eram mais associados aos adultos e que hoje também vemos na faixa etária pediátrica”, alerta.
Anna destaca ainda que excesso de peso não significa necessariamente uma nutrição adequada. “Crianças e adolescentes com obesidade também podem apresentar deficiências de micronutrientes. Por isso, não podemos olhar apenas para o peso. A qualidade da alimentação é fundamental”, alerta.
Mudança envolve toda a família
Para a pediatra, reduzir o uso de telas durante as refeições é apenas uma parte de uma mudança que envolve toda a família. Estimular brincadeiras e atividades físicas, oferecer uma alimentação variada desde cedo e rever o próprio comportamento dos adultos também são medidas importantes.
“Os pais vivem isso também e os filhos acabam seguindo o exemplo. As famílias precisam de informação para entender o porquê de determinadas decisões e conseguir mantê-las. Estamos falando de escolhas feitas hoje em prol da saúde futura dos filhos”, conclui.
Fonte SBT News

