Indaiatuba
Cão de assistência à mobilidade transforma a rotina de cadeirante no interior de São Paulo
Treinado pelo Instituto Adimax, Cheddar contribui para a autonomia de seu beneficiário nas tarefas cotidianas
O pelo dourado, os olhos atentos e a carinha inocente fazem dele irresistível e não denunciam que o labrador tem uma longa ficha de ocorrências caninas. Cheddar, um labrador de 2 anos e oito meses, nasceu destinado a participar do Programa de Treinamento de Cão de Assistência do Instituto Adimax, localizado em Salto de Pirapora, interior de São Paulo, e maior centro de treinamento da América Latina. Por isso, aos três meses de idade Cheddar foi encaminhado a uma Família Socializadora, dando início a uma etapa importante de seu processo de formação. Durante cerca de um ano, os voluntários acolhem os cães e contribuem para seu desenvolvimento emocional, ajudando-os a se adaptar a diferentes ambientes, pessoas e situações do cotidiano.
Mas a trajetória do Cheddar foi diferente. Ele foi devolvido no processo de socialização não uma, mas duas vezes. Na terceira tentativa e com uma fama de bagunceiro, chegou à família de Patrícia Jung, enfermeira e moradora de Sorocaba, que já havia participado do programa como socializadora de outro cão. “Eu sabia que tinha um desafio ali, pois era um cão devolvido duas vezes e a preocupação do Instituto era justamente com o bem-estar dele, que tivesse alguém disposto a dar esse suporte emocional também. Mas eu nem imaginava o que viria pela frente”, conta Patrícia.

Desde os primeiros dias, Cheddar demonstrou um comportamento que chamou a atenção da família: estava sempre atento ao ambiente e parecia aprender observando as pessoas. Em uma ocasião, Patrícia deixou o filhote no jardim com o marido, mas para surpresa dela, ao chegar à cozinha, Cheddar estava ali, esperando-a. Ele tinha aprendido a abrir o portão para pets, apenas observando a voluntária. “No início eu não entendi, pensei que tivesse esquecido o portão aberto, mas isso se repetiu, e compreendi que era ele. Cheddar era muito inteligente e prestava atenção em tudo.”, relembra.
A curiosidade e a disposição para explorar o ambiente também exigiram adaptações na rotina da família. Cheddar buscava objetos e encontrava maneiras próprias de se comunicar, indicando, por exemplo, quando queria ir ao jardim.“Ele era extremamente inteligente, queria pegar coisas e usava isso para se comunicar com a gente. A orientação do Instituto Adimax foi fundamental, pois, em vez de podar esse jeito explorador dele, preparamos o Cheddar para desenvolver todo seu potencial”, afirma Patrícia.
O treinamento e a virada
Após um ano com a família de Patrícia, Cheddar voltou ao Instituto Adimax para iniciar a etapa de treinamento e, mais uma vez, sua personalidade chamou atenção. Aprendia com velocidade impressionante, mas nem sempre demonstrava interesse pelas atividades propostas. Sua curiosidade, por outro lado, continuava surpreendendo a equipe. Um dia, os funcionários do Instituto foram surpreendidos com as baias do canil abertas e os cães soltos. Cheddarhavia aberto os trincos e liberado os amigos para a bagunça. Foi quando, viram nele um grande potencial: ajudar pessoas com limitações de mobilidade. “A gente percebeu que o Cheddar tinha muitas qualidades, mas talvez seu potencial não estivesse sendo direcionado para o lugar certo. O cão precisa estar totalmente à vontade na missão dele, seja para ser um cão de assistência ou um pet. É sempre ele que escolhe o que quer ser. Resolvemos oferecer ao Cheddar um outro tipo de treinamento, outros estímulos e ele nos surpreendeu”, afirma Fabiano Pereira, instrutor de cão-guia e gestor técnico do Instituto Adimax.
A partir daí, Cheddar começou a ser treinado para desenvolver habilidades que poderiam facilitar a rotina de uma pessoa com mobilidade reduzida, como abrir portas, gavetas, pegar coisas do chão, acender e apagar luzes. Com a nova rotina de treinamento o cão passou a demonstrar maior interesse pelas atividades.“Cheddar sempre foi muito inteligente e reforçamos esse talento natural dele. Foram alguns meses de trabalho até que ficasse pronto para fazer a diferença na vida de outra pessoa”, diz Eliaquim Timóteo da Cunha, responsável pelo treinamento de Cheddar.
O cão superou as expectativas e se graduou como Cão de Assistência à Mobilidade, em uma cerimônia de formatura com direito a beca.

Orgulhosa, Patrícia acompanhou de perto a conquista do cão que acolheu durante a socialização.“Foi preciso entender que o que muitas vezes a gente achava que era coisa de bagunceiro, era a inteligência dele, a curiosidade. Ele foi um cão que nos trouxe muitos desafios, mas nos deu muito amor e momentos inesquecíveis. Estou muito feliz por ele”, conta
O “Match” com Bruno
Cheddar estava pronto, mas o desafio agora era encontrar uma pessoa com mobilidade reduzida que fosse o “match perfeito” com o cão. As Inscrições estavam abertas no site do Instituto Adimax há alguns meses, mas ainda não havia sido identificada uma pessoa compatível. A oportunidade surgiudurante uma visita ao Instituto Adimax em queo analista de sistemas Bruno Rodrigues de Souza, morador de Salto de Pirapora e cadeirante há 18 anos, conheceu a história do Cheddar e viu a possibilidade de ampliar sua independência no dia a dia. Bruno ficou paraplégico após um acidente de moto e decidiu se inscrever pelo site da instituição.
“Naquele momento, percebi que essa poderia ser uma oportunidade de ampliar minha independência no dia a dia. Realizei minha inscrição pelo e iniciei um processo muito sério, organizado e humanizado. Durante toda a seleção, fui acompanhado por uma equipe multidisciplinar composta por assistentes sociais, psicólogos e profissionais especializados, que avaliaram minha rotina, minhas necessidades e o ambiente onde vivo e trabalho, demonstrando o compromisso da instituição em garantir que a parceria entre pessoa e cão de assistência fosse realmente efetiva”, relata.
Após um período de espera, veio a confirmação de que Bruno e Cheddar seriam uma dupla. Os dois passaram por uma fase de adaptação com acompanhamento do Instituto Adimax. “Desde os primeiros contatos, criamos uma conexão muito positiva. Com o treinamento e a orientação dos profissionais da instituição, fui aprendendo a trabalhar em conjunto com ele, e, aos poucos, percebendo como sua presença poderia transformar minha rotina” relembra Bruno.
Hoje ambos são inseparáveis e Cheddar acompanha Bruno em todos os lugares: trabalho, academia, mercado ou lazer. É capaz de pegar uma pasta do armário do escritório ou chaves do chão, buscar garrafa de água ou toalha nos treinos ou pegar algo em uma prateleira mais baixa no supermercado, por exemplo. “Cheddar não é apenas um cão treinado. Ele representa autonomia, segurança, inclusão e qualidade de vida. Sua atuação me auxilia em diversas tarefas do cotidiano, contribuindo para que eu tenha mais independência em deslocamentos e atividades diárias. Receber um cão de assistência foi uma experiência transformadora para mim. Além do suporte prático, existe também um vínculo afetivo muito forte, construído diariamente com confiança, respeito e companheirismo”, afirma Bruno.

