Indaiatuba
No Dia de Finados, a memória de Domenico ainda leva visitantes ao cemitério de Indaiatuba
Jovem imigrante italiano foi assassinado em 1907; mais de um século depois, seu túmulo continua associado a pedidos, agradecimentos e relatos de graças
No Dia de Finados, quando famílias visitam cemitérios para lembrar parentes e amigos, um túmulo em Indaiatuba se destaca por uma história que atravessou gerações. É o de Domenico De Luca, jovem imigrante italiano assassinado em dezembro de 1907. A sepultura, no Cemitério Municipal da Candelária, continua ligada à devoção popular e recebe homenagens de pessoas que atribuem a ele graças alcançadas.
A permanência dessa tradição aparece em documentos oficiais do município. Em 2017, ao apresentar uma proposta para homenagear Domenico com o nome de uma rua, o gabinete do vereador Alexandre Peres registrou que o túmulo recebia grande número de homenagens, principalmente no Dia de Finados. O mesmo documento reproduz uma imagem de 2008 com oferendas colocadas na sepultura e informa que a comoção em torno do jovem fazia parte da memória coletiva de Indaiatuba.
Não há, nas fontes consultadas, uma contagem oficial recente do número de visitantes. Ainda assim, reportagens locais publicadas em 2018 descrevem o local como ponto de curiosidade e de peregrinação. A tradição, portanto, não deve ser apresentada como uma cerimônia religiosa oficial nem como prova de milagres, mas como uma manifestação de religiosidade popular preservada pela comunidade.
A vida interrompida
Domenico era descendente de italianos e trabalhava no comércio. As fontes o descrevem como caixeiro-viajante ou comerciante de cereais. Ele saía de São Paulo para percorrer vilas da região e, em dezembro de 1907, esteve em Indaiatuba para negociar milho e feijão. Na época, o município tinha cerca de 1.500 habitantes.
Os registros consultados divergem quanto à idade exata do jovem: algumas referências indicam 16 anos; outras, 17. A diferença não altera o essencial da história. Domenico era muito jovem, estava longe de casa e carregava dinheiro relacionado à atividade comercial quando foi atraído para uma residência na Rua Candelária, nas proximidades da igreja matriz.
Segundo a reconstrução histórica reunida no projeto de lei municipal e no livro Uma tragédia indaiatubana — O Crime do Poço, de Eliana Belo Silva, três homens planejaram roubá-lo. Depois do assassinato, o corpo foi escondido em um poço situado nos fundos do imóvel. Os criminosos teriam dividido o dinheiro da vítima.
O desaparecimento mobilizou a família. A narrativa que se consolidou na memória local afirma que a mãe de Domenico sonhou com o filho morto dentro de uma casa e, ao chegar a Indaiatuba, reconheceu o imóvel. Com a ajuda de moradores e da polícia, o corpo foi localizado oito dias depois. Embora o episódio do sonho pertença ao campo da tradição oral, ele se tornou um dos elementos mais marcantes da história contada na cidade.
As investigações levaram à prisão dos três envolvidos. Conforme os registros históricos consultados, as condenações variaram de 21 a 30 anos de prisão. O crime provocou forte repercussão regional e marcou a imagem de Indaiatuba por décadas.
De vítima de um crime a santo popular
A transformação de Domenico em uma figura de devoção não ocorreu por canonização ou reconhecimento formal de qualquer igreja. Ela nasceu da comoção causada pelo assassinato e da sucessão de relatos de graças atribuídas ao jovem. O próprio documento encaminhado à Fundação Pró-Memória descreve Domenico como um “santo de província”, expressão usada para definir pessoas mortas que passam a receber homenagens e ex-votos em seus túmulos.
Flores, velas, orações e objetos deixados na sepultura expressam pedidos e agradecimentos de visitantes. Para quem acredita, o túmulo é um lugar de intercessão. Para a história social da cidade, ele representa outra coisa além da devoção: é também um ponto de preservação da memória de um crime que marcou a pequena comunidade do início do século XX.
Essa dupla dimensão ajuda a explicar a longevidade da tradição. O visitante não encontra apenas a lembrança de um jovem morto violentamente. Encontra a história de uma família que buscou respostas, a narrativa de uma cidade que acompanhou o caso e uma devoção que foi sendo transmitida entre moradores ao longo de mais de cem anos.
O significado de Finados
Celebrado em 2 de novembro, o Dia de Finados é uma data dedicada à lembrança dos mortos. No Brasil, a ocasião reúne práticas religiosas e familiares, mas também costumes populares que variam de cidade para cidade. Visitar um túmulo, limpar uma lápide, levar flores ou acender uma vela são formas de manter vínculos afetivos e simbólicos com quem morreu.
No caso de Domenico, Finados amplia uma visita que ocorre durante o ano. A data reúne, no mesmo espaço, pessoas que vão homenagear seus familiares e outras que procuram a sepultura do jovem italiano movidas pela fé, pela curiosidade histórica ou pelas duas razões. O cemitério passa a funcionar como lugar de luto, devoção e memória pública.
A história também lembra que a memória de uma cidade não se conserva apenas em monumentos e documentos. Ela sobrevive em gestos repetidos: uma oração, uma flor, uma narrativa contada por um avô, uma fotografia de homenagem ou a indicação de um túmulo a quem ainda não conhece o episódio.
Em 2018, a Câmara Municipal aprovou a denominação de uma rua do Jardim Residencial Nova Veneza como Rua Domenico De Luca. A homenagem oficial mostra que o nome do jovem deixou de estar restrito ao cemitério e passou a integrar a paisagem urbana de Indaiatuba.
Mais de um século depois do Crime do Poço, Domenico permanece lembrado não pela vida que conseguiu viver, mas pelo modo como sua morte foi incorporada à identidade local. No Dia de Finados, a visita ao seu túmulo reafirma esse processo: a cidade volta a contar a história, e cada visitante acrescenta uma nova camada à memória de um rapaz que chegou a Indaiatuba para trabalhar e acabou se tornando uma das figuras mais conhecidas de seu imaginário popular.

